sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Diálogo Inter-Religioso

Introdução

      O tempo em que vivemos está a dar sinais visível da contradição entre as religiões como fundamentalismo, fanatismo, sincretismo religioso, pois, estamos numa sociedade multicultural, multiétnica e multireligiosa, por isso, causa muitos conflitos, tensões, fobias, intolerância e perseguição de conotações religiosas que fervilham o mundo.

Escolhi este tema pelas escassas bibliografias que estão disponíveis sobre o diálogo inter-religioso. Mas também, de uma maneira muito particular, porque este ano, toda a família franciscana em júbilo louva o Senhor pelo dom precioso do “Espírito de Assis”. 

O objectivo deste trabalho consiste na importância do diálogo inter-religioso na vida actual, porque cada vez mais a religião se torna fontes de conflito no mundo hodierno.

     Este trabalho estrutura-se em três capítulos.
O primeiro capítulo apresenta o diálogo como uma missão de evangelizar. Vamos desenvolvendo alguns conceitos do diálogo na teologia cristã da actualidade. Tomamos em consideração, a importância da liberdade religiosa e o diálogo entre as religiões. Destacando também algumas linhas de diálogo entre cristão-muçulmanos e cristão-judeus. Limitar-nos-emos apenas as três grandes religiões, porque têm um património em comum, pois, são descendentes de Abraão, adoram o único Deus.
O segundo capítulo aborda o tema do diálogo à luz dos documentos do Concílio Vaticano II, que constituiu a carta magna do diálogo Inter-Religioso. Como é sabido, o tema do diálogo foi-se desenvolvendo muito na Aula Magna do Concílio Ecuménico Vaticano II, que decorreu nos anos 1962 a 1965. Além disso, os documento Magistério da Igreja (as Encíclicas) que os últimos Papas publicaram que, de um modo implícito destacando o tema do diálogo. O Secretariado Pontifício para o Diálogo inter-religioso, publicou no dia 19 de Maio de 1991, o documento «Diálogo e Anuncio», que indica as linhas mestras do diálogo inter-religioso.

O terceiro capítulo reflecte sobre “Espírito de Assis”. Porque, coincide com a celebração dos 25 anos deste espírito. Este evento é um momento único na história da Igreja após o Concilio. Por isso, vamos descrevendo alguns episódios que aconteceram em Assis em 27 de Outubro de 1987. Neste capítulo, vamos perscrutar também alguns episódios e exemplos das duas figuras ilustres que dedicaram a sua vida a causa do diálogo como Francisco de Assis e João Paulo II.
  

CAPITULO I:
DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO: UMA MISSÃO DE EVANGELIZAR

1.      O que significa o diálogo inter-religioso?

Etimologicamente a palavra «diálogo» derivada de grego “diálogos” e em Latim “dialogus” que significa ter a capacidade de discutir (dialexis), e era praticamente, intercambio com os vocábulos latinos disputatio, altercatio, refutatio e reprobatio[1]. O último meio século caracterizou-se pelo conceito de “diálogo”. Diálogo significa abertura recíproca sem coacções.
O diálogo é um acontecimento que desde o princípio prende a consciência do outro, toma a consciência da realidade que o circunda e entra em relação com ela. Por conseguinte, o diálogo funda-se na essência intelectual do homem e na unidade e identidade da sua natureza de ser que pode comunicar com o seu semelhante, apesar das particularidades que o afectam[2]. Diálogo sincero com o “outro” é um momento único para prender a sua consciência e toda a realidade que o envolve. Diz-nos Herman Schaluck: «encontrar o outro em forma diálogica significa encontrar a outra pessoa na “alteridade do seu olhar”, redimindo-a e libertando-a da sua solidão e desejo de uma relação significativa. Que quer dizer, reconhecer os seus limites, deixar enriquecer pelo outro, criar com ele valores significativos para vantagem de todos e da criação[3]». Em suma, diálogo é um elemento fundamental e característica da nossa humanidade, ligado ao reconhecimento do valor e de toda a pessoa humana, digna de ser acolhida e ouvida, chama a relação com o outro, impõe-se também no plano das relações entre os religiosos[4]
O diálogo requer diferentes interlocutores, diálogo exige uma abertura, vontade e verdade. O risco diálogo é o dogmatismo, fanatismo, indiferentismo fundamentalistas, relativismos e do sincretismo religioso. João Paulo II dizia: «A via mestra da missão é o diálogo sincero; o diálogo que "não nasce de tácticas ou de interesses", e nem sequer é fim em si mesmo. O diálogo, aliás, que deixa falar o próximo com estima e compreensão, afirmando os princípios em que se crê e anunciando com amor as verdades mais profundas da fé, que são alegria, esperança e sentido da existência»[5]. O diálogo possibilita essa purificação e conversão interior e, a via do diálogo é como se fosse um caminho para tecer os laços das relações com um Tu, com o outro, com o ambiente, com Deus, numa “existência dialógica

2.      Valor do diálogo inter-religioso

Para promover o trabalho do diálogo, o Papa Paulo VI criou, em 1964, o Secretariado para os não-cristãos, atualmente denominado Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Após a Assembleia Plenária de 1984, o Secretariado publicou um documento com o título  «A atitude da Igreja perante os seguidores de outras religiões. Reflexões e orientações sobre diálogo e missão». O documento declara que a missão evangelizadora da Igreja "é uma realidade unitária mas complexa e articulada". Indica os seus elementos principais: presença e testemunho;  empenho pela promoção social e pela libertação do ser humano; vida litúrgica, oração e contemplação; diálogo inter-religioso; e, por fim, anúncio e catequese[6].
Portanto, a condição para o diálogo é em primeiro lugar o reconhecimento da dignidade do outro, que significa respeita-lo, tratá-lo e procurar para entender a sua crença e confissões religiosas. O diálogo é elemento fundamental e característica da nossa humanidade, ligado ao reconhecimento do valor de toda a pessoa humana, digna de ser acolhida e ouvida, chamada à relação com o outro, impõe-se também no plano das relações entre as religiões[7]. Diz respeito a pluralidade das raças, das culturas e das religiões.

O objectivo fundamental e básico do diálogo é «para ultrapassar os conflitos da ordem religiosa e evitar que certas atitudes que têm outras origens (étnicas, culturais, ligadas a ressentimentos provocados por acontecimento do passado) possam encapotar-se sob pretexto religiosos, arriscando-se a degenerar em modalidades de fanatismo[8]».

2.1. Novo paradigma do diálogo[9]

A teologia crista busca a sua identidade própria na Teologia Fundamental, surgiu como tema central esta disciplina teológica de diálogo com as outras religiões. Como bem conhecido nos últimos anos como Teologia das religiões. Assim, a recente teologia das religiões distribui-se sobre as linhas de três paradigmas.
Ecclesiocêntrica ou de Cristologia exclusiva, acentua na radicalidade do cristianismo: Cristo é o único salvador, que desde a formula de São Cipriano de Cartago que caracteriza por axioma “extra ecclesia nulla sallus”. Isto é, fora da igreja não há salvação.
Cristocêntrica ou Cristologia inclusiva, esta Cristologia inclusivista pode ter duas interpretações: teoria do “cumprimento”, Cristo como meta final que encontra plena resposta as religiões não cristã; teoria da presença de Cristo parciais ou implícitas nas outras religiões. Pluralista ou Teocêntrico, ressalta a presença salvífica de Deus em toda a História e convida os crentes das diversas religiões a aprofundarem a sua experiência da fé e a aproximarem mais a Deus. E, também sustenta que todas as religiões são diversos caminhos de salvação. De forma muito resumida que este paradigma o importante é Deus, e não na mediação dos outros profetas ou os líderes religiosos.

2.2. Formas do diálogo[10]

Este documento apresenta-nos quatro formas de diálogo inter-religioso:
a) O diálogo da vida, onde as pessoas se esforçam por viver num espírito de abertura e de boa vizinhança, compartilhando as suas alegrias e tristezas, os seus problemas e as suas preocupações.
b) O diálogo das obras, onde os cristãos e os outros colaboram em vista do desenvolvimento integral e da libertação da gente.
c) O diálogo dos intercâmbios teológicos, onde os peritos procuram aprofundar a compreensão das suas respectivas heranças religiosas, e apreciar os valores espirituais uns dos outros.
d) O diálogo da experiência religiosa, onde pessoas radicadas nas próprias tradições religiosas compartilham as suas riquezas espirituais, por exemplo, no que se refere à oração e à contemplação, à fé e aos caminhos da busca de Deus e do Absoluto.

3.      Diálogo entre as religiões

Na sua exortação Apostólica Verbum Domini, dizia o Papa: «A Igreja reconhece como parte essencial do anúncio da Palavra o encontro, o diálogo e a colaboração com todos os homens de boa vontade, particularmente com as pessoas pertencentes às diversas tradições religiosas da humanidade evitando formas de sincretismo e de relativismo[11]». Estamos a viver num clima que a religião se torna cada vez mais como fontes do conflito na história de humanidade. E estes atos tocaram os corações de todos. Claro que ao longo do percurso da história da humanidade, as religiões também se cometiam alguns erros, tais erros que de algum modo se dividem a unidade e amizade entre as religiões. Segundo Bento XVI, de algum modo a própria religião se motive de fato a causa da violência…, de modo mais subtil mas sempre cruel, vemos a religião como causa de violência também nas situações onde esta é exercida por defensores de uma religião contra os outros[12].
Todos os crentes e não crentes aspiram por terem uma vida digna, acolhedora e compreensão mútua. Aspiram por construírem um futuro próspero e um profundo sentido de fraternidade universal, mas sobretudo, o respeito á vida e o direito da pessoa humana. Por tanto, o diálogo é o único caminho, para aprofundar o respeito a vida como valor fundamental, os direitos inalienáveis do homem e da mulher e a sua igual dignidade[13]. O direito a vida é o valor fundamental de cada ser humano, pois, cada um é único e irrepetível.

3.1. O Islão

A palavra islão significa “resignação”, “renuncia”, “abandono a Deus”. A religião fundada pelo Maomé, cujos fiéis são muçulmanos, da palavra árabe muslim significa submisso, crente. O dogma “imã”, ou fé, simplesmente crença em Alá, deus único, incriado e criador e o Maomé é o seu enviado. O Alcorão é a fonte da inspirada de todos os conhecimentos possíveis, divinos e humanos[14].
A doutrina islâmica contém os cinco pilares: Shahada, que quer dizer “a profissão da fé”: não há outro Deus que o Állah e, o Maomé o é o seu enviado. Esta profissão da fé, os muçulmanos afirma a sua adesão à última mensagem revelada por único Deus ao Maomé. Salat (a oração), que dá sentido a cada jornada e marca com a invocação ao Deus único. Ritualmente 5 vezes pró dia, do nascer ao pôr-do-sol, em direcção ao Meca. Zakat, quer dizer “oferta aos pobres” também alguém traduzem como “imposto social purificador”. Distribuí a sua riqueza para com os necessitados são um ato religioso. Sawn ou Ramadão, significa “o jejum”, especialmente durante o mês de Ramadão, o nono do calendário. Isto é, uma ruptura durante um mês com a relação de vida normal. Desde o nascer até pôr-do-sol, os muçulmanos fazem abstinência de qualquer substância estranha que pode entrar no corpo e de qualquer relação sexual. É o mês que se pode expressar fisicamente a vontade de servir o Deus único. Hayy, é conhecido como “peregrinação a Meca”, os muçulmanos ao menos uma vez na vida à Kaaba-o santuário sagrado em Meca[15]»

3.2  Cristão e muçulmano

No relacionamento com os muçulmanos diz Conc. Vat. II que constitui para a Igreja Católica a Magna Charta do diálogo islâmico-cristão: «A Igreja olha com estima para os Muçulmanos que adoram o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, (…) cujo nome a fé Islâmica com agrado pronuncia[16]». E também igreja reconhece os muçulmanos porque adoram o mesmo Deus que os cristão; adoram o Deus Abraão e prestam culto a Deus com a oração, a esmola e o jejum.
O documento citado não ignora a herança histórica do Islão: «no decurso do século surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, e este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens[17]». O conhecimento recíproco, paz e justiça são as questões fundamentais no diálogo entre cristãos e muçulmanos.
João Paulo II dizia que o respeito e o diálogo exigem a reciprocidade em todos os âmbitos, sobretudo no que diz respeito às liberdades fundamentais e sobretudo à liberdade religiosa. Eles favorecem a paz e o entendimento entre os povos[18]. O diálogo entre todas as religiões supera todas as barreiras que dividem a humanidade. E, os líderes religiosos são portadores da paz e devem contribuir para criar um clima de fraternidade universal e desenvolvem um espírito de diálogo sincero e respeitoso, fundado sobre um conhecimento recíproco entre várias religiões.
Benta XVI manifesta a sua disponibilidade em prol do diálogo entre as religiões: «Garanto-vos que a Igreja deseja dar continuidade à construção de pontes de amizade com os seguidores de todas as religiões, a fim de procurar o bem autêntico de todas as pessoas e da sociedade no seu conjunto[19]».

3.3. Judaísmo

Religião actual dos judeus, que receberam o seu ensinamento do próprio Deus por intermédio de Moisés, reconhecido também como “povo eleito de Deus”. O sentido da lei e espiritualidade do judaísmo radica neste 6 palavras-chave: Tora, Mishna, Gemara, Talmud, Halakka, Haggada. Tora é a Lei. A lei escrita, tal como Moisés recebeu no Monte Sinai. Mishna é a Lei oral. É um ensinamento que fornece um certo número de precisões necessárias para que se ponham em prática os mandamentos da Lei escrita. A própria Mishna foi comentada nas escolas rabínicas. O conjunto destes comentários chama-se Gemara. A Gemara juntamente com a Mishna formam o Talmud, cujas redacções definitiva terminou no fim do século V. A Halakka é a interpretação legalista ou ritualista dos textos bíblicos. A Haggada é a interpretação espiritual ou edificante dos textos bíblicos. Assemelha-se a uma colectânea de homilias, onde os textos bíblicos são interpretados em função do progresso espiritual ou moral dos fiéis[20].

3.4. Cristão e judaísmo

No pano de fundo, as três grandes religiões no mundo vêm de uma só raiz. São as gerações de Abraão: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. As três religiões são monoteístas, porque, adoram o único Deus. Por isso, todos os crentes destas três religiões fazem referência a Abraão; Pai dos crentes “Pater omnium credentium” (cf. Rom.4:11)
O documento Nostra Aetate reconhece a fé nos tempos primórdios que está enraizado no profeta de Abraão. A Igreja de Cristo reconhece que os seus primórdios da sua fé e eleição já se encontram, segundo o mistério divino da salvação, nos patriarcas, em Moisés e nos profetas. Professa que todos os cristão, filhos de Abraão segundo a fé. O concilio recorda ainda a igreja que os apóstolos, fundamentos e colunas da igreja, nasceram do povo judaico, bem como muitos daqueles primeiros discípulos que anunciaram ao mundo o evangelho de Cristo. Sendo tão grande o património espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos[21]. Por essa razão, João Paulo II afirmava: «nós os cristãos reconhecemos que a herança religiosa judaica é intrínseca à nossa fé: “Sois os nossos irmãos maiores” [22]». Assim, falou sobre a reconciliação entre cristão e judeu: «Fazemos votos por que o povo judaico reconheça que a Igreja condena totalmente o anti-semitismo e todas as formas de racismo, porque se opõem de maneira radical aos princípios da cristandade. Devemos trabalhar juntos para construir um futuro em que não haja mais anti-judaísmo entre os cristãos, nem sentimentos anticristãos entre os judeus[23]».

4.      Liberdade religiosa

O diálogo inter-religioso implica também a pluralidade religiosa. Bento VXI dizia: «o diálogo não seria fecundo, se não incluísse também um verdadeiro respeito por toda a pessoa para que possa aderir livremente à sua própria religião[24]». Assim, o sumo pontífice alerta aos países que vivem sem a liberdade religiosa: «é doloroso constatar que, em algumas regiões do mundo, não é possível professar e exprimir livremente a própria religião sem pôr em risco a vida e a liberdade pessoal. Noutras regiões, há formas mais silenciosas e sofisticadas de preconceito e oposição contra os crentes e os símbolos religiosos»[25]. O tema central da mensagem é “liberdade religiosa, caminho para a paz”, no entanto, o Papa exortou aos homens e mulheres de boa vontade a renovarem o seu compromisso pela construção de um mundo onde todos sejam livres para professar a sua própria religião ou a sua fé e viver o seu amor a Deus com todo o coração, toda a alma e toda a mente[26], seja em privado ou lugares públicos. Com efeito, toda a pessoa deve exercer livremente o direito de professar e manifestar, individual ou comunitariamente, a própria religião ou a própria fé, tanto em público como privadamente, no ensino, nos costumes, nas publicações, no culto e na observância dos ritos[27].

Ainda há neste tempos às perseguições e descriminações, atos de crimes e violências, terrorismos, e intolerância em nome da religião contra os membros das minorias religiosas. De facto, «o fanatismo, o fundamentalismo, as práticas contrárias à dignidade humana não se podem jamais justificar, e menos ainda o podem ser se realizadas em nome da religião. (…) a liberdade religiosa é condição para a busca da verdade e que a verdade não se impõe pela violência mas pela força da própria verdade[28]». A condição para o diálogo é em primeiro lugar o reconhecimento da dignidade da pessoa. É impossível dialogar se não reconhecer a dignidade do outro.


CAPITULO II:
DIALOGO INTER-RELIGIOSO PÓS CONCÍLIO VATICANO II

1.      Diálogo Inter-religioso à luz dos documentos conciliares

O tema do diálogo inter-religioso foi posto gradualmente nos debates do Concílio Ecuménico Vaticano II. Paulo VI na primeira encíclica Ecclesiam Suam de 1964 dizendo que a igreja deve dialogar com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, mensagem, colóquio[29]. Este pensamento teológico de Paulo VI, traçou as linhas mestras do diálogo.
A Igreja Católica afirmou a sua estima e reconhecimento pelos valores que existem noutras religiões, nomeadamente o islamismo, judaísmo, budismo e hinduísmo: «a Igreja olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens»[30]. Diz Gaudium et Spes: «E o que fica dito vale não só para os cristãos, mas para todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente»[31]. Este documento revela a salvação de Deus por Jesus Cristo sem distinguir a crença religiosa. Concluiu com uma invocação dirigida a todos os crentes e não crentes o desejo de tal diálogo, guiado apenas pelo amor pela verdade e com a necessária prudência, não exclui ninguém; nem aqueles que cultivam os altos valores de espírito humano, sem ainda conhecerem o seu outro; nem aqueles que se opõem à Igreja, e de várias maneiras a perseguem»[32]. Dignitatis Humanae reflecte igualmente a verdadeira dimensão universal e fraterna da vida humana. Exorta a todos os crentes que com prudência e caridade, pelo diálogo e colaboração com os sequazes doutras religiões, dando testemunho da vida e fé cristã, reconheçam, conservam e promovam os bens espirituais e morais e os valores sócio-culturais que entre eles se encontram[33]. Assim, Lumen Gentium, que explicitamente menciona a relação de judeus, muçulmanos e outros crentes, para afirmar que ninguém se excluiu da salvação de Deus: «o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e connosco adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último dia»[34].

2.      Os documentos magistério da Igreja

Paulo VI afirmava: «a Igreja respeita e estima, porque elas são a expressão viva da alma de vastos grupos humanos. (…) Elas possuem um património impressionante de textos profundamente religiosos; ensinaram gerações de pessoas a orar; e, ainda, acham-se permeadas de inumeráveis “sementes da Palavra” e podem constituir uma autêntica "preparação evangélica"[35]». Em 1984, João Paulo declarou: «o diálogo inter-religioso é fundamental para a igreja, chamada a colaborar no plano de Deus com os seus métodos de presença, de respeito e de amor para com todos os homens[36]». O Redemptorio Missio de João Paulo II salienta que o diálogo inter-religioso faz parte da missão evangelizadora da Igreja. (…) Como método e meio para um conhecimento e enriquecimento recíproco[37]. Na Encíclica Redemptor Hominis, de um modo implícita fala sobre a necessidade de diálogo «de um modo diverso e com as devidas diferenças (…) a aproximação com os representantes das religiões não-cristãos e que se exprime também ela através do diálogo, dos contactos, da oração em comum e da busca dos tesouros da espiritualidade humana, os quais, como bem sabemos, não faltam também aos membros destas religiões[38]».

3.      Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso: “Diálogo e anúncio”[39]

Ao comemorar o vigésimo quinto aniversário da proclamação de Declaração Nostra Aetate, o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso e Congregação para a Evangelização dos povos, publicou o documento “Diálogo e Anúncio”, no dia 19 de Maio de 1991.
O documento “diálogo e anúncio”, traçou as linhas mestras do diálogo. No número 9 diz: «o diálogo significa o conjunto das relações inter-religiosas, positivas e construtivas, com pessoas e comunidades de outros credos para um conhecimento mútuo e um recíproco enriquecimento"». O diálogo implica «uma justa avaliação das outras tradições religiosas supõem normalmente um estreito contacto com elas. Isto implica, além de conhecimentos teóricos, uma experiência prática do diálogo inter-religioso com os seguidores destas tradições». Sublinha o número 17: «o Concílio reconheceu abertamente a presença de valores positivos não só na vida religiosa de cada crente das outras tradições religiosas, mas também nas mesmas tradições religiosas a que eles pertencem». O documento define que através da prática daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas, e seguindo os ditames da sua consciência, que os membros das outras religiões respondem afirmativamente ao convite de Deus e recebem a salvação em Jesus Cristo, mesmo se não o reconhecem como o seu Salvador. Por isso, o documento exorta no número 41: «O diálogo sincero supõe, por um lado, aceitar reciprocamente a existência das diferenças, ou também das contradições, e, pelo outro respeitar a livre decisão que as pessoas tomam em conformidade com a própria consciência».

CAPITULO III
O “ESPÍRITO DE ASSIS”

1.      Espírito de Assis, o que é?

Foi com audácia e espírito profético que João Paulo II reuniu todos os líderes religiosos em Assis. O próprio protagonista declarou este encontro memorável com a designação “o Espírito de Assis”. João Paulo II anunciou este encontro no dia 25 de Janeiro de 1986, na Basílica de S. Paulo fora dos Muros (Roma), no mesmo sítio e coincide com o dia em que, o Papa João XXII, em 1959, anunciou ao mundo o desejo de realizar o magnífico evento; “Concílio Ecuménico Vaticano II”. Afirmava João Paulo II: «A Santa Sé deseja contribuir para suscitar um movimento mundial de oração pela paz, que, ultrapassando os confins de cada uma das Nações e envolvendo os crentes de todas as Religiões, chegue a abraçar o mundo inteiro, (…) Nesta ocasião solene, desejo anunciar que estou a encaminhar oportunas consultas com os Responsáveis não só de várias Religiões do mundo, para promover com ele um especial encontro de oração pela paz, na cidade de Assis, lugar que a seráfica figura de São Francisco transformou num centro de fraternidade universal[40]». Este é o desejo incansável de João Paulo II para manter a paz no mundo e a paz entre as religiões.

No dia 27 de Outubro de 1986, as lideranças das várias Confissões Religiosas reuniram em Assis, para rezar pela paz. A jornada começou na Basílica de Santa Maria dos Anjos. Os representantes de varias religiões como Cristão, Bahai, Budista, Judeus, Janiista, Muçulmanos, Religião Ameríndia, religiões tradicionais africanas, Xintoistas, Sihk, Zoroastrianos, e Hinduísta. No seu discurso do enceramento João Paulo II dizia: «Pela primeira vez na história, reunimo-nos de todos os lugares, Igrejas Cristãs, Comunidades Eclesiais e Religiões do Mundo, neste local sagrado dedicado a São Francisco, para testemunhar perante o mundo, cada um segundo sua própria convicção, a qualidade transcendente da paz»[41]. Dia 27 de Outubro de 1986: data histórica e marcada para sempre na memória e no coração da humanidade para sempre. É também, porque simultaneamente o mundo vivia o Ano Internacional da Paz, proclamada pela Nações Unidas.

2.      Porque a ti, Assis?

Todos se questionam porque é que Igreja escolheu Assis como um lugar importante para reunir todos os Representantes de várias religiões do mundo? Esta é a razão fundamental de João Paulo II: «Escolhi esta cidade de Assis para a nossa Jornada de Oração pela Paz, por causa do particular significado do Santo aqui venerado – São Francisco conhecido e venerado no mundo inteiro como um símbolo da paz, de reconciliação e de fraternidade[42]».
Pouco antes de morrer, Francisco pediu aos seus frades que o pusesse em terra, voltado para Assis, e proferiu estas palavras de bênção: «Bendita por Deus sejas tu, cidade santa, porque por ti se salvarão muitas almas e em ti habitarão muitos servos de Deus e muitos dos teus filhos serão escolhidos para o reino da vida eterna[43]». Ainda hoje esta bênção está a palpitar a cidade de Assis e o pobrezinho de Assis exerce sobre muitas almas a atracção de uma experiência original e transformante através da sua cidade natal.

3.      As figuras exemplares do diálogo

Na cultura de diálogo queria evocar duas figuras ilustres, que fascinam toda a humanidade e marcaram a história da humanidade com o próprio exemplo de vida.

3.1. São Francisco de Assis

Na verdade, e apesar de tudo, S. Francisco é uma das figuras mais fascinantes da história da humanidade. Votação recente, via internet, deu-lhe o primeiro lugar como figura do milénio, com 47% de votos. Ele é a utopia realizada do modelo de pessoa humana que todos sonhamos ser. Ainda nos dias de hoje, muitas pessoas que têm imensa simpatia e uma atracção geral e irresistível pelo Pobrezinho de Assis. Porquê? A este fenómeno André Frossard qualifica simplesmente como “o milagre de São Francisco de Assis[44]. O mais característico de Frossard consiste em nos fazer ver que Francisco é uma pessoa fora de série, impossível de se definir em poucas palavras ou resumir numa fórmula rápida.
Na cultura de diálogo inter-religioso, a figura de Francisco fascinou o mundo religioso. Os agnósticos têm uma imensa admiração para com o Santo. É célebre a frase do agnóstico Ernest Renan: «pode-se dizer que depois de Jesus o único cristão autêntico foi Francisco de Assis»[45].   No entanto, sobre o pobrezinho de Assis, o que mais importa conhecer, admirar e estimar é o reconhecer que é também universalmente admirado e estimado, quer no ambiente eclesial quer noutros universos religiosos.

3.2.  Encontro entre Francisco de Assis e o Sultão

            A vida franciscana tem um carácter decididamente evangelizador, expresso no capítulo 16 da Regra não bulada. Este magnífico capítulo constitui a “carta magna” da evangelização franciscana, diz a regra: se qualquer dos irmãos, por inspiração divina, quiser ir para entre os moiros e outros infiéis (muçulmanos) (…) não abrirem debates nem discussões, mas mostrarem-se submissos a toda a criatura humana por amor de Deus e confessarem que são cristãos[46]. Na história da Igreja Francisco foi o primeiro fundador que dedicou um capítulo da sua Regra à evangelização do Islão. É o fruto da experiencia que teve no meio dos sarraceno, e grande encontro com o Sultão Malek el Kamel em Damieta no Egipto, em 1219. Enquanto, a própria igreja comanda a cruzada para combater e expulsar os sarracenos pela força da Terra Santa.
Contudo, o diálogo consiste em atravessar as fronteiras em nome de Cristo como fez o Francisco de Assis, quando foi ao encontro do sultão. E, foi o único heróico atrevimento de transpor as linhas de batalha, para ir dialogar pacificamente sem derramamento se sangue, onde Sultão o acolhe fraternalmente.

3.3. João Paulo II

      João Paulo II é um homem do diálogo, sobretudo o diálogo ecuménico e inter-religioso. Assis é, por ventura, o ícone mais significativo do seu pontificado: «O famoso encontro com as diversas religiões foi uma luz que de projectou em todo o seu pontificado. Neste diálogo, João Paulo II ultrapassou barreiras de séculos que pareciam intransponíveis e abriu caminhos totalmente inovadores»[47]. Com o seu olhar de fé que lançou sobre agenda das relações internacionais foi outra das grandes intuições de Papa. Sonhou sempre com a paz e com a vivência pacífica entre os povos. A liberdade, a paz e o diálogo constituíram os eixos deste olhar de fé. Soube percorrer os caminhos das guerras anónimas e fratricidas, e animar os esforços de comunidades católicas, como Santo Egídio, e igrejas locais, como a de Timor, no restabelecimento da paz[48].

Conclusão

Como vimos, o compromisso do diálogo é algo irreversível para a Igreja Católica, particularmente desde o Concílio Vaticano II. Mas, o diálogo em alguns casos não se limitem apenas a questão religiosa, porque, o diálogo aborda todos os problemas humanos como a paz, justiça, liberdade, direito da pessoa, ecologia, etc. Por isso, o diálogo entre as religiões não pode limitar-se aos líderes, aos estudiosos e especialistas. Deve tornar-se um diálogo de povo, um diálogo de vida, que se revela cada vez mais indispensável para a convivência pacífica nas nossas cidades e países.

Por tanto, o diálogo é um meio para tecer os laços de amizade entre as religiões. Sem o diálogo não há abertura de recolhimento e respeito mútuo entre os crentes e não crentes. Contudo, o diálogo leva-nos a descobrir no outro o valor insubstituível que está enraizado no nosso ser e quebra o muro da inimizade, a barreira do conflito e desconfiança para tornar-nos homens e mulheres livres com a capacidade de se reconhecer e acolher mutuamente num clima familiar.
      Em suma, o diálogo não é uma busca da unidade, mas confronto, ajuda recíproca para ser crente, cada qual na própria religião; o diálogo é caminho que nos conduz para Absoluto que nos transcende. No entanto, é importante o reconhecimento recíproco, o respeito pelos valores do outro, seja reconhecida a dignidade e a liberdade de consciência de cada ser humano. 


Bibliografia:

Documentos Eclesiais:

1.      CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II, Documentos Conciliares e Pontifícios, Editorial A. O. Braga, 11ª edição, Braga 1992
2.      ACTA APOSTÓLICA SEDIS; está disponível no site: http://www.vatican.va/archive/aas/index_po.htm, Data de busca, 18 de Novembro 2011.
3.      PAULO VI, Encíclica Eclessiam Suam, 6 de Agosto 1964. Está disponível no site: http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_06081964_ecclesiam_po.html, data de busca, 18 de Novembro 2011
4.      PAULO VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 8 de Dezembro de 1975. Está disponível no site: http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_exhortations/index_po.htm, data de busca, 18 de Novembro 2011
5.      JOÃO PAULO II, Encíclica sobre a Validade permanente do Mandato Missionário Redemptoris Missio, 7 de Dezembro 1990. Está disponível no site: http://www.vatican.va/edocs/POR0071/_INDEX.HTM, data de busca, 18 de Novembro 2011
6.      JOÃO PAULO II, Encíclica Redemptor hominis, 4 de Março 1979. Está disponível no site: http://www.vatican.va/edocs/POR0061/_INDEX.HTM, data de busca, 18 de Novembro 2011
7.      JOÃO PAULO II, Mensagem para o Dia Missionário Mundial 2002. Está disponível no site: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/missions/documents/hf_jp-ii_mes_20020519_world-day-for-missions-2002_po.html, data de busca, 18 de Novembro 2011
8.      SECRETARIADO PONTIFICIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGISO, Diálogo e Anuncio, publicou no dia 19 de Maio de 1991. Está disponível no site: http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/interelg/documents/rc_pc_interelg_doc_19051991_dialogue-and-proclamatio_po.html, data de busca, 18 de Novembro 2011

Livros:
1.      BENTO XVI, Exortação Apostólica Verbum Domini, 30 de Setembro 2010, Paulus editora 2010.
2.  MAESTRO, Juan Pablo García, El futuro del Diálogo Interreligioso, acción cultural Cristiana, Salamanca, 2005
3.      BASSET, Jean-Claude, El diálogo interreligioso, Desclée De Brouwer, S. A., 1999
4.  VARILLON François, Um cristão face às grandes religiões, editorial A. O. Braga colecção “fronteira”, 1996
Revistas:
1.      L’ osservatore Romano
2.      Vida Consagrada, nº. 294 – Ano 26 – Outubro 2006
3.      Vida Consagrada, nº. 279 – Ano 25 – Maio 2005
Franciscanos:
1. ACTA ORDINIS FRATRUM MINORUM, An. CV- Septembris – Decembris 1986 – FASC. III
2. S. FRANCISCO DE ASSIS fontes franciscanas, Ed. Franciscana Braga – 1982
3. GUITTO Gerárd, Descobrir S. Francisco, Ed. Franciscana Braga


   (NB: Trabalho desenvolvido no âmbito da Unidade Curricular de Seminário Metodologia sob orientação do docente: Dr. Luís Miguel Figueiredoda Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional de Braga)




[1] BASSET Jean-Claude, «El diálogo interrelegioso»; Desclée de Brouwer S. A, Bilbao 1999, p. 68
[2] Ibidem
[3] SCHALUCK Herman, «Missão e diálogo», in Vida consagrada, no. 294, Ano XXVI – Outubro 2006, p. 324-335
[4]CERETTI Giovanni, «Christos Enciclopédia do cristianismo», Editorial Verbo Lisboa – São Paulo, 2004, pag. 269-272
[5] JOÃO PAULO II, «Mensagem para o Dia Missionário Mundial 2002». Seguindo a edição portuguesa, está disponível no site: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/missions/documents/hf_jp-ii_mes_20020519_world-day-for-missions-2002_po.html, data de busca, 18 de Novembro de 2011
[6] SECRETARIADO PONTIFICIO PARA OS NÃO CRISTÃO, «a atitude da Igreja perante os seguidores de outras religiões (Reflexões e orientações sobre diálogo e missão)»,   AAS 76, 1984, p. 816-828
 [7] ANTUNES Manuel, «Christos Enciclopédia do cristianismo», Editorial Verbo Lisboa – São Paulo, 2004, pag. 269-272
[8] Ibidem
[9] Ibidem
[10] PONTIFÍCIO CONSELHO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO CONGRECAÇÃO PARA EVANGELIZAÇAÕ DOS POVOS, «Diálogo e Anuncio, 19 de Maio de 1991», n. 42. Seguindo a edição portuguesa, está disponível no site: http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/interelg/documents/rc_pc_interelg_doc_19051991_dialogue-and-proclamatio_po.html, data de busca 18 de Novembro 2011.
[11] BENEDICTUS XVI; «ADHORTATIO APOSTOLICA POSTSYNODALIS Verbum Domini» no. 118. AAS 103 (2010), pag. 782 – 783. Seguindo edição portuguesa: A Palavra de Deus, Paulus Editorial, 2010, No. 117
[12] BENTO XVI, «Discurso aos chefes das grandes religiões vindos para o Dia de oração pela paz em Assis», na Basílica de Santa Maria dos Anjos, 27 de Outubro de 2011, L’osservatore Romano, ed. Port. No. 8-9, 30 de Outubro de 2011
[13] BENEDICTUS XVI; «ADHORTATIO APOSTOLICA POSTSYNODALIS Verbum Domini» no. 118. AAS 103 (2010), pag. 782 – 783. Seguindo edição portuguesa: A Palavra de Deus, Paulus Editorial, Lisboa 2010
[14] THIOLLIER Marguerite-Marie, «Dicionário das Religiões», Editorial Perpétuo Socorro, Porto, p. 185
[15] MAESTRO, Juan Pablo Garcia, «El futuro del diálogo interreligioso», Acción Cultural Cristiana, Salamanca 2005, p. 132-133
[16]CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II, «DECLARATIO DE ECCLESIAE HABITUDINE AD RELIGIONES NON – CHRISTIANA Nostra Aetate», N. 3. AAS 58 (1966), p. 140-141, seguindo a edição portuguesa: Concílio Ecuménico Vaticano II», editorial – A.O. Braga, 11ª edição, 1 de Novembro 1992
[17] Ibidem, N. 2
[18] JOÃO PAULO II, «Declaração no encontro com os jovens muçulmanos em Casablanca», Marrocos, 19 de Agostos de 1985: AAS 78 (1986), pag. 99
[19] BENTO XVI, «Discurso do Papa aos delegados das outras igrejas, comunidades eclesiais, tradições religiosas», 25 de Abrir de 2005; L’osservatore Romano, ed. Port. 30 de Abril de 2005, pag.12
[20] VARILLON François, «um cristão face às grandes religiões», Editorial A. O. Braga, Augusto de 1996, pag. 88
[21] CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II, «DECLARATIO DE ECCLESIAE HABITUDINE AD RELIGIONES NON – CHRISTIANA Nostra Aetate», N. 4. AAS 58 (1966), p. 140-141, seguindo a edição portuguesa: Concílio Ecuménico Vaticano II», editorial – A.O. Braga, 11ª edição, 1 de Novembro 1992
[22] JOÃO PAULO II, «Discurso na Sinagoga de Roma»  13 de Abril de 1986.  L'Osservatore, ed. Port, de 20 de Abril de 1986, n. 4
[23] JOÃO PAULO II, «Saudação do Santo Padre João Paulo II aos dois Grão- Rabinos de Israel e ao presidente do estado de Israel», no Hochel Shlomo, 23 de Março de 2000: L’Osservatore, ed. Port., 1 de Abril 2000, pag. 4
[24] BENEDICTUS XVI; «ADHORTATIO APOSTOLICA POSTSYNODALIS Verbum Domini» no. 120. AAS 103 (2010), pag. 782 – 783. Seguindo edição portuguesa: A PALAVRA DE DEUS, Paulus Editorial, Lisboa 2010
[25]BENEDICTUS XVI, «Dum Dies XLIV Internationalis commemoratur pro Pace promovenda: «Libertas religiosa, iter ad pacem». AAS 103 (2011), pag. 46-58
[26] Ibidem
[27] Ibidem
[28]Ibidem
[29] PAULUS VI, «LITTERAE ENCYCLICAE Ecclesiam Suam», no. 38. AAS 56 (1964), pag. 638- 639
[30] CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II, «Declaratio de Ecclesiae Habitudine ad Religiones non – Christiana Nostra Aetate», N. 2. AAS 58 (1966), p. 140-141, seguindo a edição portuguesa: Concílio Ecuménico Vaticano II», editorial – A.O. Braga, 11ª edição, 1 de Novembro 1992
[31] CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II, «Contitutio Pastoralis de Ecclesia in Mundo Huius Temporis Gaudium et Spes», n. 22. AAS 58 (1966), p. 1042- 1043. Seguindo a edição portuguesa: Concílio Ecuménico Vaticano II», editorial – A.O. Braga, 11ª edição, 1 de Novembro 1992
[32] Ibidem, n. 92
[33]CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II, «Declaratio de Libertate Religiosa
 Dignitatis Humanae», n. 14. AAS 58 (1966), pg. 940. Seguindo a edição portuguesa: Concílio Ecuménico Vaticano II», editorial – A.O. Braga, 11ª edição, 1 de Novembro 1992
[34]CONCILIUM OECUMENICUM VATICANUM II, «Constitutio Dogmatica de Ecclesia Lumen Gentium», n. 16. AAS 57 (1965), pg.20. Seguindo a edição portuguesa: Concílio Ecuménico Vaticano II», editorial – A.O. Braga, 11ª edição, 1 de Novembro 1992
[35] PAULUS VI, «Adhortatio Apostolica Evangelii Nuntiandi», n.53. AAS 68 (1976), pag. 41-42. Seguindo a edição portuguesa, está disponível no site: http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_exhortations/documents/hf_pvi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi_po.html, data de busca 18 de Novembro 2011.
[36] SECRETARIADO PONTIFICIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGISO, «Diálogo e Anuncio», publicou no dia 19 de Maio de 1991, no. 39
[37] IOANNES PAULUS II, «Litterae Encyclicae Redemptorio Missio», n. 55. AAS 83 (1991), pag.302-304
[38] IOANNES PAULUS II, «Litterae Encyclicae Redemptor Hominis», n. 6. AAS 71 (1979), pag. 265-268
[39] SECRETARIADO PONTIFICIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO, «Diálogo e Anuncio», publicou no dia 19 de Maio de 1991
[40] Ibidem, p.3
[41] JOÃO PAULO II, «Discurso no encerramento na Jornada Mundial de Oração pela Paz», na Basílica de São Francisco, 27 de Outubro de1986: Acta Ordinis Fratrum Minorum, Setembro-Desembro de 1986, pag. 180 -183 e L’osservatore Romano, ed. Port., 2 de Novembro de 1986, p.1. 
[42] JOÃO PAULO II, «saudação aos Representantes reunidos em Assis para a Jornada Mundial de Oração pela Paz», na Basílica de Nossa Senhora dos Anjos, Porcíuncula, 27 de Outubro de1986. Acta Ordinis Fratrum Minorum, Setembro-Desembro de 1986, pag. 177 -178 E L’osservatore Romano, ed. Port., 2 de Novembro de 1986, p.1.
[43] FRANCISCO DE ASSIS, «Espelho de perfeição (Cap. CXXIV)» in S. Francisco de Assis, escritos-biografias-documentos, Editorial Franciscana, Braga 1982, p. 1017
[44] FROSSARD André, apud Gerard GUITTON «Descobrir S. Francisco», Editorial Franciscana, p. 9
[45] RENAN Ernest, apud Gerard GUITTON «Descobrir S. Francisco», Editorial Franciscana, p. 12
[46]S. FRANCISCO DE ASSIS, «Regra não bulada», n. 16, in Escritos são Francisco e Santa Clara de Assis, ed. Franciscana Braga – 2001, p. 158-159
[47] A.T.N, «João Paulo II o Papa dos novos tempos», in Vida Consagrada, no 279, ano XXV- Maio 2005
[48] Ibidem

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Natal: o Logos fez-se carne!

Jesus ensinou-nos a viver o Natal. Aliás só Ele pode fazer Natal! Natal é um encontro com a vida. Certo dia Deus fez-se homem. E foi Natal! Foi Natal porque Deus nasceu no homem. Foi Natal porque o homem renasceu de Deus. Que coisa sublime: Deus ousou fazer-Se homem para que o homem pudesse receber o inefável privilégio de se tornar Deus!

Natal de Belém

Natal é a festa da comemoração do nascimento de Jesus, Filho de Deus, foi fixada em 25 de Dezembro desde o inicio do século IV, para a igreja do Ocidente e um pouco mais tarde para a do Oriente.
A Igreja primitiva reconheceu apenas um dia de festa: Dia do Senhor, isto é, o Domingo, ou seja, o oitavo dia. A primeira referência ao dia de Natal encontra-se num calendário romano do ano 336. Posteriormente ao Concílio de Nicea de 325, que proclamou a origem divina de Jesus contra o arianismo, contemporânea da edificação da primeira basílica de S. Pedro (330), construída pelo imperador romano Constantino após a proclamação do édito de Milão que dava a liberdade à Igreja (313), a festa do Natal parece ter sido celebrada primitivamente naquela basílica(1). Por volta da segunda metade do século IV, encontramos a indicação deste dia como data do Natale solis invicti no calendário civil, e ao mesmo tempo como data da celebração do Natal de Jesus. Por outro lado, 25 de Dezembro, data do solstício de inverno, estabelece uma relação bíblica e simbólica luz/trevas como Cristo vencedor absoluto das trevas do pecado(2). Para contrapor uma festa cristã a essa festa pagã, então, o cristianismo substituiu então o tema da festa pagã pelo tema cristão do mistério do nascimento de Jesus Cristo, já que os profetas anunciaram como “sol de justiça”.

O Papa Leão Magno (+461), chama ao Natal «sacramentum nativitatis Christi» (o sacramento do Natal de Cristo). Este padre da Igreja realça que o valor salvífico da celebração do Natal tem uma orientação pascal, dado que não é independente da Páscoa, o mais solene dos mistérios cristãos. Porque a Pascoa é o seu ponto de partida, o sacramento do Natal de Cristo renova os primórdios da salvação(3). De facto, para S. Leão Magno o mistério de Natal traz ao mundo a salvação, ou seja, o Natal já é o inicio do «sacramentum-mysterium paschale»; o cerne e centro do mistério da salvação que culmina na paixão, morte e ressurreição de Cristo. A propósito de Natal São Leão Magno exclama: «O Filho de Deus... uniu-se a nós e vinculou-nos a si de tal modo que a humilhação de Deus até à condição humana se tornasse uma elevação do homem até às alturas de Deus»(4). De facto, a Encarnação de Deus é a revelação do mistério de Deus, como fonte para levar o homem a participar na vida divina. São Leão Magno explica-nos novamente a essência da celebração do mistério do Natal na vida cristã actual: «As palavras do Evangelho e dos Profetas... inflamam o nosso espírito e ensinam-nos a compreender a Natividade do Senhor, este mistério do Verbo que se fez carne, não tanto como uma recordação de um acontecimento passado, mas sobretudo como um facto que se realiza sob os nossos olhos... é como se, na solenidade hodierna, ainda se proclamasse: “Anuncio-vos uma grande alegria, que será para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu para vós um Salvador, que é Cristo Senhor”»(5) E acrescenta: «Reconhece, cristão, a tua dignidade e, tendo-te tornado participe da natureza divina, presta atenção a não recair, com uma conduta indigna, de tal grandeza na baixeza primitiva»(6)

Nestes últimos anos, com o progresso fulminante da globalização, o desenvolvimento da ciência tecnológica e a difusão rápida da telecomunicação, o termo “Natal” foi alterado no seu sentido verdadeiro na linguagem comunicativa da sociedade actual. Natal foi-se secularizando cada vez: é hoje o folclórico Pai- Natal, a árvore nórdica, são as luminárias, o fogo-de-artifício, consumismo desenfreado, a troca de presentes, os reencontros familiares… Contudo-como em-ressonâncias há júbilo, há festa, ecoam por toda a parte maravilhosos cânticos natalícios, de forma geralmente poética e ingénua, que transforma o nascimento de Cristo num ambiente de maravilhas e cheios de encanto, mas, sem grande motivação religiosa.

O sentido mais profundo é o nascimento do Filho de Deus, que Encarnou no seio da Virgem Maria feito homem como nós. O verdadeiro significado de Natal prende-se com o nascimento de Cristo, que veio ao mundo com o único propósito: o de remir os nossos pecados através da Sua própria morte, a fim de resgatar o homem e o mundo. Como dizia o Papa Bento XVI: «o Senhor compendiou a sua Palavra, abreviou-a (…) O mesmo Filho é a Palavra, o Logos; a Palavra eterna fez-se pequena - tão pequena a ponto de caber numa manjedoura. Fez-se menino, para que a Palavra possa ser compreendida por nós»(7). Portanto, Natal requer simplicidade e abertura para acolher “o Menino de Belém”, que no inicio criou todas as coisas e nos últimos tempos assumiu a nossa natureza humana, como está no Evangelho de S. João 1, 14: «Verbum caro factum est» (o Verbo fez-Se carne), enquanto, Tertuliano no século III, afirmava: «Caro salutis est cardo», «a carne é o fulcro da salvação»(8)

A Igreja considera o mistério do Natal como uma renovação do mistério pascal. Aqui reside o centro da vida litúrgica destes dois tempos fortes «depois da celebração anual do mistério pascal, nada na Igreja é mais venerável do que a celebração do Natal do Senhor e das suas primeiras manifestações: é o que faz no Tempo do Natal»(9). No entanto, a celebração anual do nascimento de Cristo é a participação no mysterium do mesmo Senhor que se fez alimento e bebida dos fiéis no sacramentum da salvação. Assim, a liturgia é a expressão da fé, dado que a celebração litúrgica do Natal ensina a Encarnação(10), do Filho de Deus feito homem, Aquele que assumiu toda a realidade humana excepto o pecado. Do mesmo modo, a Oração Colecta da Missa do dia de Natal exprime uma teologia simples, mas cheia de sentido e servindo profundamente como elo da ligação entre os mistérios da criação, da Pascoa e do Natal: «Senhor nosso Deus, que de modo admirável criastes o homem e de modo ainda mais admirável o renovastes, fazei que possamos participar na vida divina do vosso Filho que se dignou assumir a nossa natureza humana»(11). E é o mesmo hino de louvor na primeira antífona das Primeiras Vésperas da oitava do Natal do Senhor (1 de Janeiro): «Oh admirável mistério! O criador do género humano, tomando corpo e alma, dignou-Se nascer de uma Virgem; e, feito homem, tornou-se participantes da sua divindade»(12). É o mistério que os padres da Igreja exprimiram por estas outras palavras: «Deus fez-Se homem, para que o homem se tornasse Deus».

Natal de Grecio

Ao celebrarmos o Natal, quase em cada canto ou esquina de rua encontramos um presépio. Muita perguntas a fazer: Quem inventou o presépio? Que tem função um estábulo dentro de uma igreja? Que lição podemos tirar? Situemo-nos no século XIII para dar resposta a estas questões. Encontramos aqui a figura ilustre Francisco de Assis. O “Alter Christus” tinha mais profunda veneração pelo Natal do Senhor do que por qualquer outra solenidade. Dizia ele: «depois que o Senhor nasceu para nós, devemos assegurar a salvação»(13). Esta é a intuição profunda de Francisco acerca de Natal.

Foi introduzido por Francisco de Assis no século XIII. O “Poverello” influenciou a iconografia da natividade quando, em Greccio, em 1223, celebrou o Natal(14) com um presépio animado com a presença de burro e o boi. Giotto quem primeiro pintou a natividade à maneira franciscana. Foi portanto, sob a influência franciscana que, desde Greccio em 1223, se difundiu pelos quatro cantos do mundo, o costume de construir o presépio na época de Natal. Segundo a tradição, o primeiro a pensar, a construir e a ornamentar um presépio de Natal com as suas personagens e o boi, o jumento e as ovelhas, foi S. Francisco de Assis. Esse grande amigo da natureza e dos animais instalou um presépio numa igreja, e os fiéis acharam a ideia tão bela e sugestiva, que a adoptaram. Mais tarde, na Idade Média, começou a fazer-se a representação dos grandes Mistérios, espectáculos realizados nas próprias igrejas. E então eram personagens vivas a representarem a Sagrada Família nos acontecimentos do nascimento de Jesus. Não tardou que todas as igrejas fizessem o seu presépio de Natal e rivalizassem entre si no sentido de exibirem os figurantes mais luxuosamente vestidos. Mas isso já não era conforme com o espírito de pobreza da Sagrada Família nem do humilde santo de Assis(15). Mas, isto não significa que em toda a história do cristianismo não tivesse havido nenhuma representação da natividade ou o mistério da incarnação de Deus em Belém. Na basílica de Santa Maria Maior em Roma existia desde o século IV um oratório da Natividade representando o Natal, ou a gruta da Natividade em Belém. A intuição de Francisco que o levou a construir o presépio do Senhor, surgiu após a sua viagem a Terra Santa, em 1220. Podemos concluir que foi depois de visitar a gruta da Natividade de Belém, que, surgiu em Francisco o inflamável desejo de construir o presépio para celebrar de forma visível e impressionante a humildade do nascimento do Filho de Deus, no mistério da Encarnação. A suprema aspiração de Francisco, o seu mais vivo desejo e mais elevado propósito era exprimir a morte de Cristo na cruz e, do mesmo modo, o seu nascimento encena-se a noite de Belém. Na biografia do santo, estes dois sentimentos estão interligados: «dois sentimentos de Cristo empolgavam-no de tal maneira que o não deixavam pensar em mais nada: a humildade expressa no nascimento e o amor manifestado na Paixão»

O episódio de Greccio surgiu da seguinte maneira: «Um quinze dias antes do Natal, Francisco mandou chamar, um senhor da aldeia de Greccio, no vale de Rieti, e disse-lhe: “Se queres que celebremos em Greccio o próximo Natal do Senhor, vai imediatamente e começa já a prepará-lo como vou dizer. É meu desejo celebrar a memória do Menino que nasceu em Belém de modo a poder contemplar com os meus próprios olhos o desconforto que então padeceu e o modo como foi reclinado no feno da manjedoura, entre o boi e o jumento”»(16). Foi assim com o presépio que, o “alter Christus”, nos legou a representação viva do mistério da Encarnação do Filho de Deus na história da Igreja.

Na véspera desse dia, 24 de Dezembro de 1223, Francisco desempenhou a função de diácono17, com a voz sonora entoou o santo Evangelho. E surpreendeu ainda mais os povos dos arredores de Greccio com o seu simples e tocante sermão de Natal. Diz o seu biógrafo Tómas de Celano:
«A sua voz potente e doce, límpida, bem timbrada, convida os presentes às mais altas alegrias. Pregando ao povo, tem palavras doces como o mel para evocar o nascimento do Rei pobre e a pequena cidade de Belém. Por vezes, ao mencionar a Jesus Cristo, abrasado de amor, chama-lhe o “menino de Belém”, e, ao dizer “Belém” era como se imitasse o balir duma ovelha e deixasse extravasar da boca toda a maviosidade da voz e toda a ternura do coração. Quando lhe chamava “menino de Belém” ou “Jesus” passava a língua pelos lábios, como para saborear a doçura de tão abençoados nomes»(18). O Natal de Greccio foi portanto um acontecimento irrepetível e único na vida da Igreja. Aí, Francisco celebrou de uma forma concreta a Encarnação do Logos, o “Verbo fez-Se Carne”.

Na Carta a Todos os Fiéis, cheios de encanto acerca da Encarnação do Logos, Francisco dizia: «O Pai altíssimo, pelo seu arcanjo S. Gabriel, anunciou à santa e gloriosa Virgem Maria, que esse Verbo do mesmo Pai, tão digno, tão santo e glorioso, ia descer do céu, a tomar a carne verdadeira da nossa humana fragilidade em suas entranhas»(19). E prosseguiu: «Sendo Ele mais rico do que tudo, quis, no entanto, com sua mãe bem-aventurada, escolher a vida de pobreza»(20). O que atrai mais a atenção de Francisco é o Menino de Belém. Descreve-o de seguinte modo: «Porque o santíssimo Pai do céu, nosso Rei desde toda a eternidade, mandou lá do alto seu Filho dilecto, e Ele nasceu da bem-aventurada Virgem Santa Maria. (…) Porque nos foi dado o santíssimo e dilecto Menino, e por nós nasceu durante uma viagem e foi deitado num presépio, por não haver lugar para ele na estalagem»(21). Para Francisco, o que comove e fascina mais na Encarnação do Logos é a pobreza de Cristo, a simplicidade, a santa humildade no presépio de Belém e, mais do que tudo, o amor de Deus pelo homem. Por isso, Greccio transformou-se em nova Belém.

Que mensagem Francisco nos quer transmitir com o presépio de Greccio? Que cada presépio deve ser hoje para todos nós um templo consagrado ao Senhor. Como as gerações de então, nos dias de hoje, o menino Jesus está a dormir em muitos corações, sobretudo nos cristãos que se dizem “crentes” mas não praticantes. Por isso, este santo Natal a voz de Francisco ressoa desde Greccio aos quatro cantos do mundo: “oh vós que estais a dormir, acordai!”, porque nesse dia Deus se fez Menino e foi amamentado como qualquer criança…!

Que este Natal seja um reflexo do que já tinha acontecido há XXI séculos em Belém e que Francisco contemplou em Greccio há VIII séculos.
Deixemo-nos transformar pelo Logos, Verbo feito carne, a fim de que, saibamos a ama-lo e acolhe-lo no nosso coração, na nossa vida, nos nossos lares e nos ambientes de trabalho. Este, o grande milagre de Natal: o Logos feito carne; assumiu toda a nossa natureza humana, ao ponto de Lhe dar o nome Jesus; da palavra hebraica Jeschua, isto é, Javé ou Salvador. Votos de feliz Natal e um Ano Novo cheio de paz e prosperidade!


Notas:
1. FERREIRA José, «os mistérios de Cristo na liturgia», Gráfica de Coimbra, Lda, pag. 178
2. ESTEVES José F. Caldas e José M. G. CORDEIRO, «Liturgia da Igreja», Universidade Católica Editora, Lisboa 2008, pag. 226
3. S. LEÃO MAGNO, Sermão sobre o Natal do Senhor, 27, 1
4. Ibidem, 27, 2
5. Ibidem, 29, 1
6. S. LEÃO MAGNO, Sermão 1 sobre o Natal do Senhor, 3
7. BENTO XVI, Homilia na solenidade do Natal do Senhor (24 de Dezembro de 2006): Acta Apostolicae Sedis (AAS) 99 (2007), 12.
8. TERTULIANO, De carnis resurrectione, 8, 3: PL 2, 806
9. SAGRADA CONGREGAÇÃO DOS RITOS – CONSILIUM, «Normas gerais sobre o Ano Litúrgico e o calendário 32», in EDREL, 134
10. A. COELHO, «Curso de liturgia romana, liturgia fundamental, liturgia laudativa, liturgia sacramental», Edições Ora & Labora, Mosteiro de Singeverga, Negrelos, 1950, pag. 164, apud José F. C. Esteves e José M. G. Cordeiro, «Liturgia da Igreja», Universidade Católica Editora, Lisboa 2008, pag. 227
11. MISSAL ROMANO, Solenidade do Natal, Oração colecta da Missa do dia.
12. Antífona das Primeiras Vésperas da oitava do dia de Natal do Senhor (1 de Janeiro)
13. ESPELHO DA PERFEIÇÃO, Cap. CXIV, in S. Francisco de Assis, Escritos, Biografias, Documentos, Editorial Franciscana Braga – 1982, pag. 1007
14. Portanto, na noite de 25 de Dezembro de 1223. Como nota São Boaventura (LM X, 7), Francisco tinha-se munido da autorização papal. Não era então muito frequente a celebração da Eucaristia em “altar portátil”.
15. GUITTON Gérard, «Descobrir S. Francisco», Editorial Franciscana Braga, Braga 2004, pag. 71-72
16. TÓMAS DE CELANO, «Vida Primeira de Francisco», in S. Francisco de Assis, Escritos, Biografias, Documentos, Editorial Franciscana Braga – 1982, pag. 272-273.
17. Francisco era diácono. Diz Bartolomeu de Pisa que Francisco não quis receber o sacerdócio por humildade. São Bento, que era diácono, exerceu grande influência sobre o Poverello. Cf. Bihl em AFH 17 (1924) pag. 445-447
18. TÓMAS DE CELANO, «Vida Primeira de Francisco», in S. Francisco de Assis, Escritos, Biografias, Documentos, Editorial Franciscana Braga – 1982, pag. 272-273.
19. FRANCISCO DE ASSIS, «Segunda Carta a Todos os Fiéis (2CF), no. 4», in Escritos São Francisco e Santa Clara de Assis, Editorial Franciscana Braga – 2001, pag. 81
20. Ibidem, no. 5
21. FRANCISCO DE ASSIS, «Ofício da Paixão do Senhor (OP), no. 15», in Escritos São Francisco e Santa Clara de Assis, Editorial Franciscana Braga – 2001, pag. 61

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A cultura do SER e do TER

Uma escolha de vida

A cultura contemporânea, que perdeu o conceito da pessoa, perdeu igualmente o de conceito de maturidade. Na sociedade actual conjuga-se pouco o verbo SER. Hoje o que conta não é o SER, mas o ter, o fazer, o agir, o trabalhar, a inserção no mundo da produção. Enfim, estamos mergulhados na cultura do homo faber e homo sapiens.
As pessoas preferem conjugar o verbo sentir e acreditar, dizendo que o homem se deve realizar naquilo que sente. Como, por exemplo, nas vibrações sentimentais, nas relações instintivas e nas gratificações sensuais e emoções de fundo egoísta: o «segue o que sente».
No meio da sociedade de hoje, não constam os valores objectivos como Deus e a Pessoa. São substituídos pelas sensações subjectivas: os meus sentimentos, as minhas emoções, as minhas vibrações, as minhas gratificações.
Diariamente os mass media comunicam, como linguagem do homem do século XXI:
Sinto-me realizado: sou médico!
Sinto-me realizada: sou enfermeira!
Sinto-me realizado: dou aulas!
Nestas expressões estão patentes duas convicções:
Vale aquilo que faço; vale aquilo que sinto.
A nossa tendência é pensar que nos podemos realizar sozinhos. A nossa realização pessoal olha apenas ao sucesso, ao consenso dos outros, a uma fácil popularidade, ou seja, àquilo que parece ser. Desse modo o homem é tentado a transformar-se em «máscara, personagem, protótipo, celebridade».
Pelo contrário, o homem vale por aquilo que é e, não por aquilo que faz e sente. Não tanto pelo que aparenta, mas, sim, pela sua integração na totalidade do seres humanos.
Estas interpretações erradas da auto-realização induzem os homens a buscar a auto-realização onde ela não está. E acabam por criar pessoas iludidas, desiludidas, inconscientes, infelizes.
A sociedade contemporânea conjuga também estes verbos:
Produzir para ter;
Produzir mais para ter mais;
Ter mais para gastar mais;
Gastar mais para produzir mais.
Aliás, somos dominados pela cultura do consumismo, do materialismo do hedonismo. Propõe-se que os únicos saberes são os que se dão nas ciências experimentais, porque a única realidade é a natureza. Desaparece o sujeito e a sua história, absorvidos pelo objectos, como o que se conclui que não tem sentido as ciências humanas. O homem dissolveu-se no mundo das coisas, âmbito exclusivo das ciências experimentais. Daí o anonimato em que se sumiu a história e a sociedade. Só é válido o económico, as relações de produção, as massas trabalhadoras valorizadas desde a sua funcionalidade, etc. A novidade que se pode trazer a este mundo são as leis capazes de mudar as coisas e não as pessoas; a ética é substituída pelas estatísticas, que decantam as leis sociais até uma ou outra conduta, etc. (Bento XVI, Ratisbona 14, 02)
Diz-nos José Merino: o consumismo converteu-se num estilo de vida e fomentou uma ânsia insaciável de devorar seja o que for: coisas, objectos, pessoas, livros, valores, tempo, ideias, imagens, manias...
Consumir é uma forma de viver que exige ter e desemboca numa maneira de ser. Sou aquilo que consumo, e consumo tudo o que tenho. A sociedade envolveu-se numa girândola cruel, de que se arrisca a não sair nunca: e essa girândola cruel pode levar a humanidade à morte biológica e psicológica.
A morte biológica, que pode chegar com a guerra nuclear ou o suicídio ecológico. A morte psicológica, que pode chegar com a perda completa do sentido da vida.
Thomas Merton, monge trapista, analisando a sociedade de hoje, afirma que o maior problema da sociedade moderna é a crise da identidade. As pessoas não sabem quem são. Colocam o acento no que fazem e não no que são. Valorizam a produtividade, pautam a sua vida pelo consumismo. A nossa sociedade está marcada pela cultura do ter mais: dinheiro, casar, carro de marca, coisas, etc. Estamos numa cultura híper produtiva e hiperactiva. O resultado desta hiperactividade e hiperprodutividade evidencia-se no progressivo desconhecimento de nós mesmos, a ponto de perdermos a capacidade de estar a sós connosco mesmos.
Logo, se a categoria do “ter” exorbita dos limites do seu uso legítimo, desencadeia de seguida a má consciência da anti-verdade: o egoísmo, a agressividade, a alienação e o desespero. (Pietro Prini, in “Pensamento franciscano, sentido e actualidade”.
Francisco recusa, na sua motivação essencial, o primado do fazer e do ter. Portanto, nessa conquista do ser, para além do ter, Francisco de Assis, continua a ser modelo e ponto de referência para os que querem apostar nos verdadeiros valores e nas alegrias autênticas da existência.
É esta a mensagem franciscana: o homem não é um objecto ou uma essência que está feita e acabada, mas, antes, um sujeito que deve responder à realização das suas possibilidades como pessoa individual e social. O sentido da vida consistiu na substituição do primado do fazer e do ter pelo primado do ser, não do ser enquanto objecto, mas do ser que somos nós mesmos, numa irrenunciável vocação participativa. ( Pietro Prini)
Por isso, a pessoa é irredutível à natureza e ao sujeito enquanto tal. Foi Deus que chamou o homem a ser pessoa, ao dar-lhe nome. Com ele o homem responde na relação a Deus, uma prévia relação divina que o colocou na existência com um nome e uma vocação que o configura numa unidade irrepetível. (Von Baltasar, teodramática, I, 611)
Sendo assim, todo o homem é feito para ser imagem e semelhança de Deus. Somos uma realidade única, insubstituível e irrepetível. Não somos uma coisa mas uma pessoa com todo o nosso ser, porque somos obra prima de Deus. Não somos coisas nem animais, somos pessoas. Como diz o Papa BENTO XVI: «não somos o produto do acaso irracional e sem sentido de evolução. Cada um de nós é fruto dum pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário».
Portanto, no meu «eu» valho tanto quanto sou na realidade e totalidade do meu ser. Por isso, valho muito aos olhos de Deus, apesar de não ter um valor grande aos olhos humanos. Sou válido por tudo aquilo que sou na realidade e não pelo que aparento, ou pelo que os outros julgam de mim. As «coisas» são meios para nós chegarmos à plenitude. Nunca serão o fim ou a meta do homem.

Bibliografia:

1. MARTINI, Nicola de; Maturidade Plena a aposta decisiva.
2. MERINO, José António; São Francisco e tu. Ed. Franciscana Braga
3. PRINI Pietro; Pensamento Franciscano-Sentido e atualidade. Ed. Franciscana Braga.
4. O texto: Oração em silêncio; elaborado pela equipa Frajuvoc de Leiria.

Varatojo, 15 de Junho de 2011
Paz e Bem!
Festa de Doutor Seráfico S. Boaventura

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Sermão Sobre Oração

Nestes sermões, Santo António fala da oração como de uma relação de amor, que estimula o homem a dialogar docilmente com o Senhor, criando uma alegria inefável, que suavemente envolve a alma em oração. O santo recorda-nos que a oração precisa de uma atmosfera de silêncio que não coincide com o desapego de rumor externo, mas é experiência interior, que tem por finalidade remover as distracções causadas pelas preocupações da alma, criando o silencio na própria alma.
´´Deste ensinamento de Santo António sobre a oração captamos uma das características específicas da teologia franciscana, da qual ele foi o iniciador, isto é, o papel atribuído ao amor divino, e que é também a fonte do qual brota uma consciência espiritual e de qualquer conhecimento. De facto, amando conhecemos`` (Bento XVI).
Só uma alma que reza pode realizar progressos na vida espiritual; é este objeto privilegiado da pregação de Santo António. Ele conhece bem os defeitos de natureza humana, a nossa tendência a cair no pecado e, portanto, exorta a continuar a combater a inclinação da avidez, do orgulho, da impureza, e a praticar as virtudes da pobreza e da generosidade, da humildade e da obediência, da castidade e da pureza. Por este motivo, o Santo convidou várias vezes os fiéis a pensar na verdadeira riqueza, a da Cruz, que tornando bons e misericordiosos, faz acumular tesouros para o Céu.
Santo António, na escola de Francisco, coloca sempre Cristo no centro da vida e do pensamento, da ação e da pregação. Esta é outra característica típica da teologia franciscana: o cristocentrismo. Ela contempla benevolamente, e convida a contemplar, os mistérios da humanidade do Senhor, o homem Jesus, de modo particular, o mistério da Natividade, Deus que se fez Menino, se entregou nas nossas mãos: um mistério que suscita sentimentos de amor e de gratidão para com a bondade divina.
´´Por outro lado a Natividade, ponto central de amor de Cristo pela humanidade, mas também a visão do crucifixo inspira em Santo António pensamentos de reconhecimento para com Deus e de estima pela dignidade da pessoa humana, de modo que todos, crentes ou não crentes, possam encontrar no crucificado e na sua imagem um significado que enriquece a vida``( Bento XVI).
Meditando estas palavras, podemos compreender melhor a importância da imagem do crucifixo para a nossa cultura, para o nosso humanismo nascido da fé em Cristo. Precisamente olhando para o crucifixo
Vemos, como diz Santo António, como é grande a dignidade humana que aparece no espelho do crucifixo, e olhar em sua direção é sempre fonte do reconhecimento da dignidade humana.
Fr. Osório Ximenes

terça-feira, 17 de maio de 2011

A escola de amor; do "Eros" ao "Ágape"


Um dos aspectos mais marcantes na vida dos jovens é a sede de amor. O amor mais humano e comum parte duma relação entre um homem e uma mulher que é sustentada pela liberdade. É um encontro e uma doação gratuita, a partir do interior, originada por um impulso natural em ordem a um caminho de crescimento mútuo. Diz claramente Leonardo Boff: «todo o varão cresce e amadurece sob o olhar da mulher e toda mulher desabrocha para a sua identidade adulta sob o olhar do varão».
O amor afectivo entre homem e mulher “eros” exige um permanente amadurecimento para se darem um ao outro. Amar não é apoderar-se do outro, mas sim, dar-se ao outro para se completarem. Esse amor tem um valor deveras sublime, que significa dar-se ao cuidado do outro e pelo outro. Por ele está disposto ao sacrifício. Este chama-se “amor ágape”.

O amor convida-nos a ver o outro sem procurar possuí-lo. Gostamos muito dele sem pretender ser seu dono. É dificil atingir esta liberdade de coração sem ser presa da cultura de mercado, em que tudo existe para ser adquirido e usado, mesmo as pessoas. Temos que aprender a ver o outro correctamente, com olhos que não devorem nem os outros nem o mundo. S. Tomás escreveu «ubi amor, ibi oculos».
No mundo dos jovens de hoje brinca-se com a expressão: “Love is blind”. Pelo contrário, o amor não é cego: tem a sua maneira de ver, os seus olhos próprios, segundo o velho adágio latino: “ubi amor, ibi oculus”. Sabe observar e ver, não com olhar possessivo e de captação, mas com um olhar de doação, livre e gratuito, a condição para se poder viver em transparência comunitária, superando suspeitas destruidoras. (John Powel)

Khalil Gibran no seu livro «O profeta», o personagem Almitra pediu: «fala-nos de amor».
O profeta ergueu a cabeça para a multidão em silêncio. Depois, com voz forte e firme, exclamou:
«Quando o amor vos fizer sinal, segui-o, ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos, ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. E quando vos falar, acreditai nele, apesar de a sua voz poder quebrar os vossos sonhos como vento norte ao sacudir o jardim».
Porque, assim como o vosso amor vos engrandeceu, também deveis crucificar-vos. E, como se elevam à vossa altura e acariciam os ramos mais frágeis que tremem ao sol, também irá até às raízes. Sacudindo o seu apego à terra como braçados de trigo, ele vos leva, malha-vos até ficardes nus. Passa-vos pelo crivo para vos livrar do joio. Mói-vos até ao branco mais puro. Amassa-vos até ficardes maleáveis e prontos para o seu fogo.
Tudo isso vos fará o amor. O único caminho para o conhecimento da vida. O amor alimenta-se a si próprio, o amor não possa nem quer ser possuído, porque o amor basta ao amor.
Todos nós temos sede de amar e sermos amados. Somos gente apaixonada. Matar toda a paixão seria atrofiar e secar a nossa humanidade. Não somos anjos nem bestas, mas sim, homem de carne e osso. Por isso mesmo é normal sentirmo-nos apaixonados. Apaixonar-se é «para muitas pessoas a experiência mais reveladora e extraordinária das suas vidas, em que o centro de significação é de repente arrancado de si mesmo, e o ego adormecido é abalado, deslocado, para a consciência de uma realidade inteiramente outra»

Quando Thomas Merton, um cisterciense americano, se encontrava no auge da sua fama como escritor espiritual, apaixonou-se desesperadamente por uma enfermeira que o tinha tratado no hospital. Escreveu no seu diário que estava «atormentado pela consciência crescente de que estávamos apaixonados e eu não sabia como poderia viver sem ela»

Essa experiência foi vivida pela Marta. Na família de António e Maria, o Senhor concedeu-lhes uma única filha, a Marta. Ela é considerada uma rapariga bonita, inteligente, cheio de bondade e amabilidade, cheia de misericórdia para com os que sofrem ao seu lado.
Ela iniciou a sua grande aventura no processo de sair do seu mundo de analfabetismo com grande sucesso. Aí, deu-se a conhecer com Marco, um rapaz, amável e muito simpático. Ambos estudaram no mesmo tecto; Saint Mary School. Quando chegou o momento de puberdade, ambos se sentiram apaixonados uns pelo outro. Por fim, Marco desabafou o seu sentimento mais profundo à sua amiga:«sinto-me apaixonado por ti! Amo-te tanto, desejo-te muito e não posso viver sem ti! Também eu!Retorquiu Marta. Assim, ambos envolveram-se num mar de paixões».

Viveram este tempo de namoro com grandes dificuldades, incluindo o desentendimento, as turbulências e as crises da vida, mas, ambos se mantiveram firmes nas suas promessas.
Passou algum tempo, Marco pediu-lhe para se casarem. Ela aceitou o pedido. Os pais aceitaram os pedidos dos filhos. Assim, ambos deram mais um passo na busca de conhecimento um do outro. Apesar de ambos estarem comprometidos, sentiam que o caminho a percorrer para uma verdadeira maturidade ainda é longo e ambos estão na fase final do ano lectivo.
Com o decorrer do tempo, chegou o momento certo para se decidirem pelo casamento. Ambos foram graduados e ostentam, felizes, os diplomas nas suas mãos. Com profunda alegria, Marco disse:Terminei o meu curso e vou casar com a minha querida Marta. Eu amo-a tanto!» Todos os amigos os felicitaram: «Parabéns, sejam felizes! Que a vossa família seja mais feliz do mundo».
Perante todo este barulho, Marta sentiu-se apreensiva e uma coisa estranha irradiava no seu coração. Ficou infeliz com a festa da graduação, refugiou-se dos seus amigos e recolheu a um lugar solitário para reflectir. Neste discernimento, sentiu uma voz a chamar pelo seu nome: «Vem e segue-me!”. Ela ficou sem entender nada. Senhor, tu chamas-me? Não, eu não sou digna disso! Ficou passiva e procurou fugir deste chamamento. Mas, quando mais ela rejeitava mais forte essa inquietação lhe gritava no fundo do coração.
Chegou a casa todo feliz e bem disposta. Tinha os olhos lúcidos como se tivesse algo para comunicar lá do muito profundo de si. Sentou-se, fitou primeiro o rosto da mãe, depois o do pai e, finalmente, disse: “Vou ser uma freira! Quero quebrar o laço do mundo que me prende”. Naquele momento parecia sentir o tecto desabar sobre si. O pai ralhou com ela, a mãe zangou-se com o pai, enfim, uma discussão forte entre todos…

A mãe ficou pasmada e disse-lhe: «Nem penses, filha. És noiva, sabes que o Marco te ama. Ele tem muita riqueza para te fazer feliz”. Marta só meditava no seu coração sem dar qualquer resposta à sua mãe.
Ficou preocupada. Já ninguém gosta mais dela: os pais, os amigos. E ninguém podia dar-lhe uma mão para a ajudar a solucionar esse problema. Os amigos consideraram-na uma louca, pois a questão religiosa é um escândalo para eles.
Dia após dia, Marta sentiu-se cada vez mais solitária. Nessa solidão e silêncio, encontrou uma solução: «Vou pedir conselho ao meu pároco». No dia seguinte, pôr-se a caminho da Paróquia, e aí foi atendida.
Diante do pároco, desabafou abertamente o seu desejo de dar um rumo certo à sua vida; «Eu queria seguir a minha estrela, aquela que me chama: “vem e segue-me!”. Mas não sei como posso começar dar o primeiro passo. No princípio, acho uma coisa estranha e tentei para fugir. Mas essa voz persegue-me por onde quer que eu vá. Penso que não sou digna dessa vida! Tentei falar com os meus pais, mas eles ignoraram o meu pedido. Os meus amigos disseram que sou uma louca».
O pároco ouviu e ponderou a atitude daquela jovem e prometeu-lhe: «Hei-de ajudar-te, na medida do possível, a alcançares o teu objectivo». Deu-lhe os seus conselhos e algumas informações úteis sobre a vida religiosa. Certo dia, conduziu-lhe ao convento das irmãs, e aí foi admitida. Uma nova etapa para a sua vida!..

Na véspera, da sua partida para convento, pegou numa folha branca e começou a escrever uma carta para Marco: «Querido Marco, antes de mais nada, eu peço-te desculpa por ter rejeitado o nosso casamento. Obrigada pela tua companhia ao longo do meu crescimento pessoal. É verdade que, através de ti, eu aprendi a amar e tu me ensinaste como é amar uma pessoa, sem ser dono de ninguém.
Neste momento, eu estou verdadeiramente apaixonada por outra pessoa. Tenho a certeza de que Ele me ama e me chama já desde o tempo em que eu ainda estava no seio da minha mãe. Ele chama-seJESUS CRISTO. Peço imensa desculpa se tu não fores aceitar esse desafio. Eu tenho de ir. Vou, mas não é para sempre. Um dia, mais tarde, eu voltarei. Não voltarei para ti ou para ninguém, mas voltarei para todos, porque o meu amor não é inclusivo, é incondicional. Nunca me esquecerei de rezar por ti. Tu hás-de encontrar uma pessoa certa para te acompanhar ao longo da tua vida, uma pessoa mais bonita do que eu. Eu sei que tu me amas. E também te amo, mas o amor de CRISTO por mim é mais forte do que possas imaginar».

Desta forma, Marta seguiu o seu caminho. Toda a casa ficou desarrumada. Os pais negaram-na, dizendo: Tu não és a nossa filha! Sem o acompanhamento dos pais dela, mesmo assim foi sozinha para o convento. Apesar de os pais a negarem, ela continuou feliz, radiante de alegria, uma alegria que ninguém pode imaginar.
Numa linda manhã, a caixa do correio recebeu uma carta para Marco. Ele tomou-a na mão, e, com uma imensa alegria, deu um beijo a esta carta antes de a abrir. Depois, abriu-a e leu. Neste instante, ficou frustrado, e profundamente desanimado: «Traidora... traidora... traidora é tudo o que consegue dizer». As lágrimas e a fúria tomam posse da sua face.
À noite, antes de dormir, Marco gravou no seu diário: «De hoje em diante, o meu maior inimigo éJESUS CRISTO por me ter roubado uma pessoa que eu amo tanto na minha vida». Para ele, perder a amada criava-lhe muita dor. Não conseguia viver sem ela neste mundo. Como diz Otelo, face à perda da sua amada Desdémona: «Nela eu tinha refugiado o meu coração, nela tenho que viver ou não ter vida, ela é a fonte de onde brota a minha corrente, porque senão seco». Assim é o sabor do amor. Amor torna-nos felizes mas também nos causa dor e sofrimento, se não for a verdadeira escolha da vida.
Todos os dias Marco chorava por ela. Fez todos os esforços para a tirar do convento, mas não conseguiu tirá-la da mão do Senhor.
Todas as coisas são amargas para ele. O amor quando é desamado dói. O tédio, o desânimo e a fúria acompanharam-no muito tempo, ao longo desta crise de amor.
Com o de correr do tempo, esforçou-se por esquecer este drama da sua vida, e jurou que não cairia mais nestas histórias de amor.
Talvez o Senhor permitia que nós encontremos e amemos uma pessoa incerta antes de encontrarmos a pessoa certa para companhia da nossa vida. O que é importante é sempre sabermos agradecer a dádiva de Deus.

Passaram alguns anos. Num certo domingo, Marco foi à missa. Sentado no banco lá no fundo da igreja, fixou o seu olhar no crucifixo que estava atrás do altar. O seu coração estava inquieto, pois, estava muito irritado com Cristo. De repente, sentiu uma luz forte irradiar diante dele. Caiu por terra. Alguns segundos depois, apareceu uma mulher bonitíssima com um vestido branquíssimo. Acolheu-o com o seu amor maternal: «Marco, porque é que tu não deixas a tua amiga seguir o meu filho? Ele foi crucificado nesta cruz por causa de ti, e tu não tens pena dele? O meu filho tem maior amor por ela que tu. Ele entregou-se por ti, por ela, e por todos. «Ninguém maior amor do que o que dá a vida pelos seus amigos».

O amor em nós culminará no despojamento daqueles que amamos, devemos deixà-los partir, devemos deixá-los ser o que são; darmos-lhes a liberdade de construírem as suas próprias vidas.
Marco reconheceu diante do crucificado a sua culpa, e chorou amargamente por não ter deixado a sua amiga livre para escolher o seu caminho: «Jesus, filho de David tem misericórdia de mim». Doravante, ele percebeu que é isto que se chama VOCAÇÂO. A vocação é um chamamento de Deus que se sente de várias maneiras. “…Pois é Deus quem realiza em nós o querer e o fazer” (fil.2,13). Em todas as histórias da vocação, a iniciativa é sempre de Deus. Mesmo que a percepção não seja inicialmente clara, a mão de Deus permanece sempre estendida sobre a pessoa eleita e predilecta. Se é Deus que olha para o homem, apaixonando-se dele, e o torna inquieto, como diz Santo Agostinho, o homem, na sua inquietude, e numa atitude de resposta, não deve cessar de elevar as suas aspirações até Deus. Consequentemente, como num diálogo amoroso, os dois desejos, se forem verdadeiros, fundem-se num só. A pessoa, quando é conduzida a entrar no mais profundo de si mesmo, pode descobrir que a sua vontade e a de Deus se fundem num só querer e num só agir.
O chamamento, que é “divinamente humano”, parte precisamente do contexto da história de cada um. O importante é que cada chamado/a se predisponha a escutar os seus desejos e aspirações numa atitude profunda de relação com Deus, para que, purificados os seus desejos e aspirações, possa acolher, assumir e viver a vocação como desafio a uma vida “humanamente divina”.
No entanto, o chamamento de Deus ouve-se através de uma voz muito baixinha onde só se ouvem os interlocutores, isto é, entre Deus e a pessoa escolhida; «A verdadeira voz do amor é uma voz muito suave, que me fala dos pontos mais recônditos do meu ser. Não uma voz ruidosa, que se imponha e ejixa atenção. É a voz do Pai... É uma voz que só pode ser escutada por aqueles ou aquelas que se deixam tocar.» (Henri Nouwen)

Por fim, Marco regressou a casa com uma profunda alegria e comoção, por ter participado no processo de crescimento da sua amiga, quer na parte física ou psicológica, até que ela encontrou a sua verdadeira felicidade.
Alguns anos passados, Marta fez a sua profissão religiosa, a sua entrega definitiva ao serviço de Deus. Será o primeiro encontro com os pais depois de ter escolhido esta vida. Aí, estavam os pais e Marco. Com uma enorme alegria que ninguém possa imaginar, ela fez uma pequena história sobre a sua caminhada, antes e depois de encontrar e entrar nesta vida religiosa: «quando era adolescente, não sabia nada sobre a vocação. Portanto, vivi uma vida intensamente mundana e perdi tanto tempo com as coisas passageiras. Graças à sua misericórdia, hoje eu me encontro no meu verdadeiro caminho, o que me faz feliz para sempre. Muito obrigado aos meus pais e aos amigos que partilharam a vida comigo ao longo do meu de crescimento como jovem».
É este o seu último encontro com os pais. Marta foi depois para a terra de missão. Aí, deu a sua vida para a vida de muitas pessoas, construiu casa para acolher as crianças órfãs, para os doentes... Viveu feliz até à vinda da irmã morte.
Com efeito, uma vida de amor embora difícil, não é árida e sem gratificações. De facto é a única vida plena e feliz, pois é preenchida por preocupações tão profundas como a vida, tão amplas como o mundo e de alcance tão vasto como a eternidade.
Na nossa vida diária, agarramo-nos muitas vezes às pessoas porque pensamos que precisamos delas. A frase: “eu preciso de ti” é vista como uma experiencia de amor.

Algumas pessoas gostam que lhes digam: “não posso viver sem ti”. O verdadeiro amor não tem por base as minhas necessidades. O verdadeiro amor não é possessivo. O verdadeiro amor dá às outras pessoas liberdade para respirarem e para serem quem são. O apego aos outros e a dependência excessiva em relação a eles não é amor, segundo Albert Nolan. Pois, o amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O que teria acontecido a Marta se Marco não a deixasse escolher o seu caminho? Perguntava William Blake: «Pode chamar-se amor àquilo que bebe os outros como uma esponja bebe a água?» De facto, ela não seria feliz com Marco porque não era ele o seu verdadeiro amor. Ela teve uma coragem incrível no seu ideal. Para atingirmos uma meta é necessário lutar contra as marés. Temos que dizer “Sou dono do meu destino”. Com a libredade interior vamo-nos tornando pessoas livres na escolha, sem nos tornarmos aquilo que achamos que os outros querem que sejamos. E assim, quando as nossas acções são expressão de medo, a liberdade interior torna-nos facilmente prisioneiros das ilusões. Apesar de tudo ela sentiu uma excessiva dor e ternura. Mas conseguiu deixar-se ferir pela inteligência do amor, mas sangrar feliz pelo seu ideal. Ela permaneceu fiel porque este é o único caminho do amor.

O amor significa ter consideração, aceitação e interesse pelas pessoas a quem amo. É uma auto-entrega.
Por isso, amor é uma coisa que se constrói ao longo da nossa vida, é uma escola de vida.
Termino com as palavras de Michel Qouist: «aprender a amar, não é fazer muitas experiencias; é respeitares-te e respeitares todos os outros, para seres capaz de respeitar profundamente o corpo e a pessoa de um outro; é conquistares-te para te poderes dar a um outro, é esqueceres-te para não te apoderares de um outro, mas sim, ofereceres-te; é abrires-te aos outros, aceitares os outros, compreenderes os outros, permutares com os outros, para poderes acolher um outro»

Bibliografia
  1. Gibran Khalil, o profeta, ed. Alma azul.
  2. Powel John, porque tenho medo de amar? Ed. Paulinas.
  3. Nolan Albert, Jesus hoje, uma espiritualidade de liberdade radical, Ed. Paulinas.
  4. Texto de Pe. José Negri, os olhos no amanhã; o que eu quero ser na vida. Foi adaptado pelo Frajuvoc de Leiria.
  5. Texto de Timothy Radclife, Mestres Geral dos Dominicanos, a promessa de vida; a vida afectiva.

 
© 2007 Template feito por Templates para Você